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PABLO NERUDA

HORA
DO AMOR
PABLO NERUDA
Completamente bêbado de amor estou agora,
levantaram-se em minha alma as doçuras perdidas
as trêmulas campanas de uma vida sonora
carregam os celestes cansaços desta vida.
Vem crepúsculo morno, vem aurora rosada,
vem fragância de beijos, vem calor de mulher.
Tanto tempo já faz que não espero a amada,
que me mordem os cães do desejo e da sede.
Mas se bêbado vou de amor já não me importa,
a esperança longínqüa que não pode volver,
as minhas rosas levo se a vida me for curta,
é claro!, os meus rosais sei que vão florescer.
Se porém levo todo os meus rosais fechados
dá-me fraterna mão, dá-me um fruto Senhor,
da-me dois seios mornos e dois olhos amados,
porque sem eles, ai, que me vai ser do amor?
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Amor perdido...
PABLO NERUDA
Eu fiz retroceder a muralha de sombra,
e caminhei além do desejo e do ato.
Oh carne, carne minha, mulher que amo e perdi,
a ti, nesta úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o esquecimento infindo te partiu como a um vaso.
Era a negra, era a negra soledade das ilhas,
e ali me receberam, mulher de amor, teus braços.
Era a sede, era a fome, e foste tu o fruto.
Era o luto, as ruínas, e tu foste o milagre
Ah mulher, não sei como tu pudeste conter-me
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo de ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, inda há fogo em tuas tumbas,
ardem ainda as uvas bicadas pelos pássaros.
Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos trançados.
Oh, a cópula louca de esperança e esforço,
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e o trigo.
E a palavra apenas começada nos lábios.
Foi esse o meu destino: nele foi meu anseio
e caiu meu anseio, tudo em ti foi naufrágio!
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Assim é Minha Vida
PABLO NERUDA
Meus deveres
caminham com meu canto.
Sou e não sou:
é esse meu destino.
Não sou,
se não acompanho as dores
dos que sofrem:
são dores minhas.
Porque não posso ser
sem ser de todos,
de todos os calados
e oprimidos.
Venho do povo
e canto para o povo.
Minha poesia
é cântico e castigo.
Me dizem:
"Pertences à sombra".
Talvez, talvez,
porém na luz caminho.
Sou o homem
do pão e do peixe,
e não me encontrarão
entre os livros,
mas com as mulheres
e os homens:
eles me ensinaram o infinito
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AQUI TE AMO
PABLO NERUDA
AQUI TE AMO
Nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento.
A lua fosforece sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.
Desperta-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso.
Às vezes uma vela.
Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho. Às vezes amanheço, e até a alma está úmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses navios graves
que correm pelo mar aonde
nunca chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde.
A minha vida cansa-se inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho.
E tu estás tão distante.
O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas a noite aparece e começa a cantar-me.
A lua faz girar a sua rodagem de sonho.
Olham-me com teus as estrelas maiores.
E como eu te amo,
os pinheiros no vento querem cantar o teu nome com as folhas
de arame.
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A Canção
desesperada
Pablo Neruda
Aparece tua recordação da noite em que estou.
O rio reúne-se ao mar seu lamento obstinado.
Abandonado como o impulso das auroras.
É a hora de partir, oh abandonado!
Sobre meu coração chovem frias corolas.
Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se ajuntaram as guerras e os vôos.
De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.
Tudo que o bebeste, como a distância.
Como o mar, como o tempo.Tudo em ti foi naufrágio!
Era a alegre hora do assalto e o beijo.
A hora do estupor que ardia como um faro.
Ansiedade de piloto, fúria de um búzio cego
túrgida embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de nevoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!
Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo.
Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a muralha de sombra.
Andei mais adiante do desejo e do ato.
Oh carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
e em ti nesta hora úmida, evoco e faço o canto.
Como um vaso guardando a infinita ternura,
e o infinito olvido te quebrou como a um vaso.
Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher do amor, me acolheram os seus braços.
Era a sede e a fome, e tu foste à fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como pode me conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais terrível e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais tirante e ávido.
Cemitério de beijos,existe fogo em tuas tumbas,
e os racimos ainda ardem picotados pelos pássaros.
Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos traçados.
Oh a cópula louca da esperança e esforço
em que nos ajuntamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra apenas começada nos lábios.
Esse foi meu destino e nele navegou o meu anseio,
e nele caiu meu anseio, Tudo em ti foi naufrágio!
Oh imundice dos escombros, que em ti tudo caía,
que a dor não exprimia, que ondas não te afogaram.
De tombo em tombo inda chamas-te e cantas-te
de pé como um marinheiro na proa de um barco.
Ainda floris-te em cantos, ainda rompes-te nas correntes.
Oh sentina dos escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, desventurado desgraçado,
descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que a noite sujeita a todos seus horários.
O cinturão ruidoso do mar da cidade da costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como o impulso das auroras.
Somente a sombra tremula se retorce em minhas mãos.
Ah mais além de tudo. Ah mais além de tudo.
É a hora de partir. Oh abandonado
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Esperemos
PABLO NERUDA
Há outros dias que não têm
chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
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Puedo Escribir Los
Versos
Más Tristes
Esta Noche
PABLO NERUDA
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces, ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Como no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta de haberla perdido.
Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa,
y éstos los últimos versos que yo le escribo.
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O TEU RISO
Pablo Neruda
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
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O Vento na Ilha
Pablo Neruda
O Vento é um cavalo.
Ouça como ele corre pelo mar, pelo céu.
Quer levar-me: escuta como percorre o mundo para
levar-me longe
Esconde-me em teus braços por esta noite somente,
enquanto a chuva abre
contra o mar e a terra suas incontáveis bocas.
Escuta como o vento me chama galopando para levar-me longe.
Com teu peito em meu peito,
com tua boca em minha boca,
atando nossos corpos ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe sem que possa levar-me.
Deixa que o vento corra coroado de espuma,
que me chame e me busque galopando nas sombras,
enquanto eu,
submerso debaixo de teus grandes olhos,
por esta noite somente descansarei.
Meu amor!
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SE TU ME
ESQUECES
PABLO NERUDA
Quero que saibas uma coisa.
Tu já sabes o que é:
Se olho a lua de cristal,
o ramo rubro do lento outono
em minha janela,
se toco junto ao fogo
a implacável cinza ou
o enrugado corpo da madeira,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz , metais,
fossem pequenos barcos
que navegam para estas tuas ilhas
que me aguardam.
Pois, ora, se pouco a pouco
deixas de me amar, de te amar, pouco a pouco, deixarei.
Se de repente me esqueces, não me procures,
já te esqueci também.
Se consideras longe e louco
o vento de bandeiras que canta minha vida
e te decides a me deixar na margem do coração
no qual tenho raízes, pensa que nesse dia
a essa hora levantarei os braços
me nascerão raízes procurando outra terra.
Porém, se cada dia,
cada hora, sentes que a mim estás destinada com doçura
implacável,
se cada dia se ergue uma flor
a teus lábios me buscando,
ai, amor meu, ai minha,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga
nem se esquece, do teu amor, amada,
o meu se nutre,
e enquanto vivas estará em teus braços
e sem sair
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TALVEZ
Pablo Neruda
Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...
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Virás comigo,
PABLO NERUDA
disse sem que ninguém soubesse onde e
como pulsava meu estado doloroso
e para mim
não havia cravo nem barcarola,
nada senão
uma ferida pelo amor aberta.
Repeti:
vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém
viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh, amor,
agora esqueçamos a estrela com pontas!
Por isso
quando ouvi que tua voz repetia
"Virás
comigo", foi como se desatasses
dor, amor,
a fúria do vinho encarcerado
que da sua
cantina submergida soubesse
e outra
vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue
e cravos, de pedra e queimadura.
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