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 FLORBELA   ESPANCA

 

 

ANSEIOS
 
 FLORBELA   ESPANCA
 



Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!
Não entendas tuas asas para o longe
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar.
       
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Eu

Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo  anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada. . . . . . a dolorida.

Sombra de névoa, tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! . . .
     
Sou aquela que passa e ninguém vê. . . .
Sou a que chamam triste sem o ser. . . .
Sou a que chora sem saber por que. . .
                     
Sou talvez a visão que Alguém sonhou
Alguém que veio ao mundo para me ver
E que nunca na vida me encontrou

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LÁGRIMAS OCULTAS
 
 
FLORBELA  ESPANCA



Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida.
E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquerda!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

 
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OS VERSOS QUE TE FIZ 
 
 
 FLORBELA ESPANCA

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !
Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz