Clarice Lispector 

 

A Perfeição
 
 

Clarice

O que me tranqüiliza é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração
de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente
invisível.
O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
Clarice Lispector

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Se Tudo Existe


 Clarice

Se tudo existe é porque sou.
Mas por que esse mal estar?
É porque não estou vivendo do único modo
que existe para cada um de se viver e nem sei qual é.
Desconfortável.
Não me sinto bem.
Não sei o que é que há.
Mas alguma coisa está errada e dá mal estar.
No entanto estou sendo franca e meu jogo é limpo.
Abro o jogo.
Só não conto os fatos de minha vida:
sou secreta por natureza.
O que há então?
Só sei que não quero a impostura.
Recuso-me.
Eu me aprofundei mas não acredito em mim porque meu pensamento é inventado.
Clarice Lispector

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Não Entendo


clarice

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector
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NOSSA TRUCULÊNCIA
clarice

Quando penso na alegria voraz
com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.

Minha falta de coragem de matar uma galinha
e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.

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Dá-me a Tua Mão

clarice

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector

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Fico com medo...

  Clarice

Fico com medo.
Mas o coração bate.
O amor inexplicável
 faz o coração
bater mais depressa.
A garantia única
 é que eu nasci.
Tu és uma forma de
 ser eu, e eu uma
forma de te ser:
Eis os limites
de minha
possibilidade.

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Não te amo mais.
 
  Clarice Lispector

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre
quis.tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
                                 *****
LEIA AGORA  AO CONTRARIO
COMEÇANDO DO FINAL...
a, leia o poema do final para o começo).

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  O SONHO

Clarice Lispector



Sonhe com aquilo que você quiser.Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.Para aqueles que se
machucam.Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas
vidas.O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.Você
só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado A
vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre."

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  Tempestade de Almas

Clarice

Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da
mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. O
anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas em
lugar de, o ódio dos que amam. A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto a
olho. Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta
hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse
germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada
mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida.
Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em
mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada
instante mortal. O objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é
antiga, comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar
maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro vermelho.
Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não compreendo o que
escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho
uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é
que uma pessoa diz à outra? Fora "como vai?" Se desse a loucura da
franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma
pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada
no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no
vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criador inconsciência do
mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta
tarde triste que uma palavra humana salvaria.
Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo
nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a
condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstração do
pensamento, falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel. Só posso escrever se
estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo. Olho a cadeira estilo
império e dessa vez foi como se ela também me tivesse olhado e visto. O
futuro é meu enquanto eu viver. No futuro vai ter mais tempo de viver, e, de
cambulhada escrever. No futuro, se diz: se eu sei, eu não nascia. Marli de
Oliveira, eu não escrevo cartas pra você porque só sei ser íntima. Aliás eu
só sei em todas as circunstâncias ser íntima: por isso sou mais uma calada.
Tudo o que nunca se fez, far-se-á um dia? O futuro da tecnologia ameaça
destruir tudo o que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge a
loucura; e nela então o humano do homem se refugia. Vejo as flores na jarra:
são flores do campo, nascidas sem se plantar, são lindas e amarelas. Mas
minha cozinheira disse: mas que flores feias. Só porque é difícil
compreender e amar o que é espontâneo e franciscano. Entender o difícil não
é vantagem, mas amar o que é fácil de se amar é uma grande subida na escala
humana. Quantas mentiras sou obrigada a dar. Mas comigo mesma é que eu
queria não ser obrigada a mentir. Senão, o que me resta? A verdade é o
resíduo final de todas as coisas, e no meu inconsciente está a verdade que é
a mesma do mundo. A Lua é, como diria Paul Éluard, éclatante de silence.
Hoje não sei se vamos ter Lua visível pois já se torna tarde e não a vejo no
céu. Uma vez eu olhei de noite para o céu circunscrevendo-o com a cabeça
deitada para trás, e fiquei tonta de tantas estrelas que se vêem no campo,
pois, o céu do campo é limpo. Não há lógica, se se for pensar um pouco, na
ilogicidade perfeitamente equilibrada da natureza. Da natureza humana
também. O que seria do mundo, do cosmos, se o homem não existisse. Se eu
pudesse escrever sempre assim como estou escrevendo agora eu estaria em
plena tempestade de cérebro que significa brainstorm. Quem terá inventado a
cadeira? Alguém com amor por si mesmo. Inventou então um maior conforto para
o seu corpo. Depois os séculos se seguiram e nunca mais ninguém prestou
realmente atenção a uma cadeira, pois usá-la é apenas automático. É preciso
ter coragem para fazer um brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos
assustar. O monstro sagrado morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era
sozinha. Bem sei que terei de parar, não por causa de falta de palavras, mas
porque essas coisas, e sobretudo as que eu só pensei e não escrevi, não se
usam publicar em jornais.
in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de
Janeiro - 1994
Clarice Lispector