(J. G. de Araujo Jorge)
 
 
 
 
 
CANÇÃO DO MEU ABANDONO



J.G.Araújo Jorge


Não, depois de te amar
não posso amar ninguém!
Que importa se as ruas estão
cheias de mulheres
esbanjando beleza e promessa
ao alcance da mão?
Se tu já não me queres
é funda e sem remédio a minha solidão.

Era tão fácil ser feliz quando tu estavas comigo!
Quantas vezes, sem motivo nenhum,
 ouvi o teu sorriso
rindo feliz, como um guiso
em tua boca?

E todo momento
mesmo sem te beijar eu estava te beijando:
com as mãos, com os olhos, com os pensamentos,
numa ansiedade louca!

Nossos olhos, meu Deus! nossos olhos,
os meus nos teus,
os teus nos meus,
se misturavam confundindo as cores
ansiosos como olhos
que se diziam adeus...

Não era adeus, no entanto,
o que estava em teus olhos
e nos meus,
era êxtase, ventura, infinito langor,
era uma estranha, uma esquisita, uma ansiosa mistura
de ternura com ternura
no mesmo olhar de amor!

Ainda ontem, cada instante era uma nova espera... Deslumbramento, alegria
exuberante e sem limite...
E de repente,
de repente eu me sinto triste como um velho muro cheio de hera
embora a luz do sol num delírio palpite!

Não, depois de te amar não posso amar ninguém!

Podia até morrer, se já não há belezas ignoradas
quando inteira te despi,
nem de alegrias incalculadas
depois que te senti...

Depois de te amar assim,
como um deus, como um louco,
nada me bastará, e se tudo é tão pouco...

... eu devia morrer...
 
 
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NÃO TE GOSTO EM SILÊNCIO

(J. G. de Araujo Jorge)

Não te gosto em silêncio porque te sinto distante...
Entre tua boca e a palavra mora talvez minha angústia
como entre o dia e a noite
vacila a longa dúvida do crepúsculo.

Não te gosto em silêncio, quando há em teus olhos,
pousados, dois estranhos pássaros noturnos,
e teus lábios emudecem como a fonte nos ásperos
e intermináveis invernos.

Não te gosto em silêncio quando te envolves com as coisas
que te cercam, como se fosses uma delas,
quando estás como as águas paradas, cuja beleza
é apenas o reflexo das estrelas.

Por isto te provoco é te atiro perguntas
como pedras quebrando a impassibilidade do lago,
como pancadas no gongo que estremece
e vibra e te traz à tona para mim.

Não te gosto em silêncio, porque parece que atrás de tua voz
ainda se esconde alguém que tu própria não conheces,
a alguém embuçado a ameaçar nosso sonho
e que só tuas palavras poderão expulsar.

Não te gosto em silêncio, porque preciso ainda
de tua palavra para te descobrir,
lanterna adiante de meu passo, alvorada desenterrando
na noite emaranhada meu indeciso caminho.

Porque preciso ainda que tua palavra chegue
como um vento forte arrastando nuvens,
limpando céus e horizontes,
levando folhas doentes, te descobrindo ao sol...

Um dia te gostarei em silêncio.
E então me recolherei em teu silêncio,
e procurarei a sombra, como o pássaro na hora da tarde,
e porque o sol estará em nós e nada turvará meu pensamento,
entre tua boca e a palavra haverá apenas o meu beijo.
 

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NOSSA CAMA


 (J.G.de Araújo Jorge)


Olho nossa cama.
Palco vazio
sem o drama, sem a comédia,
do nosso amor.

A nossa cama branca,
branca página, em silêncio,
de onde tudo se apagou...

Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias,
aqueles gemidos, aqueles carinhos
que a mão do tempo raspou,
como nos velhos pergaminhos?..

A nossa cama imensa,
como a tua ausência,
tão ampla, tão lisa, tão branca,
tão simplesmente cama,
e era, entretanto, um mundo,
de anseios, de viagens, de prazer,
oceano, que teve ondas
e gritos encapelados,
e nele nos debatemos tantas
vezes como náufragos
a nadar... e a morrer...

Nossa cama:
campa (sem inscrição)
do nosso amor.
 
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O RESTO É SILÊNCIO

J.G. DE ARAUJO JORGE



E então ficamos os dois em silêncio,
 tão quietos como dois pássaros na sombra,
recolhidos ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite,
dois caminhos que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso,
e a quietude tamanha
que qualquer palavra
bateria estranha
como um viajante, altas horas...
Nada há mais a dizer,
depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...

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OS VERSOS QUE TE DOU

(Poema de JG de Araújo Jorge

Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos...e serei feliz...
E hei de faze-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei  depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...
Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escuta-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...
Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revive-los nas
lembranças que a vida não desfez...
E ao lê-los...com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez...
Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...
Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.

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RÉU DE AMOR
 
 
J.G.de Araújo Jorge



Sou réu de amor! Confesso o meu pecado
Porém não me arrependo desse crime,  
Que amar alguém e ser também amado     
É o crime mais gostoso e mais sublime!

A confissão por certo não redime  
A quem quer continuar a ser culpado,
E se eu for, por acaso, condenado,   
Não há razão para que desanime.

Pelo contrário. Altivo, embora fique 
Meu coração partido em mil pedaços,  
Eu quero que a justiça se pratique...

Sou réu de amor, e julgo-me indefeso!
Pela justiça, entrego-me a teus braços:
Eternamente quero ficar preso...

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SONETO A TUA VOLTA 
 
 J.G. de Araújo Jorge)

Voltaste meu amor... enfim voltaste!
Como fez frio aqui sem teu carinho....
A flor de outrora refloresce na haste
que pendia sem vida em meu caminho.

Obrigado... Eu vivia tão sozinho...
Que infinita alegria, e que contraste!
-Volta a antiga embriaguez porque voltaste
e é doce o amor, porque é mais velho o vinho!

Voltaste... E dou-te logo este poema
simples e humilde repetindo um tema
da alma humana esgotada e envelhecida...

Mil poetas outras voltas celebraram,
mas, que importa? – se tantas já voltaram
só tu voltaste para a minha vida...